Gritam desesperança, gritam sede, gritam seca…

22:19, sexta-feira.

Sentada no sofá, com uma TV desligada e uma noite nublada, sem estrelas lá fora. Apenas o notebook em seu colo e seu casaco de inverno a lhe acalentar. O calor deste momento é reduzido a isso. Eletricidade e tecido. Nenhum ser vivo, bicho ou humano por perto. Começa a entender o que é a solidão.

Com o tempo passando e aquele insistente relógio a tique-taquear na parede, os pensamentos começam a flutuar a sua volta. Confusos entre memórias e fantasias, presos nas dores e inrealidades. Como fazer? Por quê? Quando? Por quem?

Perguntas pairando no invisível da noite, contestando esse irreal sentimento de vazio interno. Arrependimento massacrando seus sentimentos como um martelo de concreto a bater constantemente. Começa a deixar de fazer, de pedir, de tentar, de querer.

Começa a subexistir. Começa a falhar. Começa a cambalear.

Logo logo virá a queda. Algo iminente. Ali, entre a mesa e o corredor, perto dos enfeites na parede. Aquelas plantas na estante já não gritam vida. Gritam desesperança, gritam sede, gritam seca. Gritam a morte não-súbita que está por vir.

Ela pergunta-se como poderia mudar aquilo. Seria simples. Um simples copo d’água faria com que a planta continuasse viva por mais alguns dias. E então mais um. E assim sucessivamente, sobrevivendo, nessa constante sede e vontade de viver, de sentir.

Ela então entende que não era muito diferente da tal, e se pergunta se vale a pena tal sacrifício. Um pouco de alento a cada quatro dias a faria sobreviver mais três, e então ao final, mais um pouco. Esmola, era esse o nome.

Triste era o fato da planta pelo menos conseguir energia por si própria, em sua fotossíntese. Mas e se fosse uma eterna noite?

Então sim. Ela e a planta eram iguais. Necessitavam atenção, mendigavam por ela, e agradeciam o pouco que recebiam, ofegando e subexistindo até a próxima coleta de água, luz, vida.

Ela solta uma risada, sem alegria, sem intenção. Sai forçada, inanimada quase. Sai amarga. O que estava fazendo consigo mesma?

Levantar do sofá, largar o notebook, retirar o casaco e se atirar sob o chuveiro. Os 17°C lá fora não fariam muita diferença sob aquela água quase fria que caía em seu corpo. Mas precisava ser regada, não? Precisava subexistir.

E então era só esperar. O tique-taque ainda em sua monótona tristeza sonora. Que esperasse, ela pensa. Espera até a próxima vez em que receberá este pouco de atenção.

E enquanto isso, fica sentada no sofá. A noite sem estrelas lá fora sussurra seu nome com o vento. Mas ela sabe: é tudo parte de sua imaginação.

(reverseclock)


Posted on May/21/2011 With 3 notes
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